O ex-vereador de Campo Grande, Claudinho Serra, seu assessor, Carmo Name Júnior, o empresário Ueverton da Silva Macedo, o ‘Frescura’, e mais três pessoas envolvidas em esquema de corrupção na Prefeitura de Sidrolândia podem enfrentar uma nova ação na Justiça.
Isso porque a promotoria de Sidrolândia os denunciou por Improbidade Administrativa no último dia 27 de março. Os alvos da Operação Tromper já enfrentaram ações na esfera criminal, mas a nova denúncia, se aceita, deve correr na área cível.
Constam como réus na ação:
- Claudinho Serra — ex-secretário de Fazenda de Sidrolândia e apontado como chefe do esquema
- Carmo Name Junior — assessor do gabinete de Claudinho Serra
- Marcus Vinicius Rossetini Costa — ex-chefe de licitações de Sidrolândia
- Ueverton da Silva Macedo — empresário conhecido como ‘Frescura’
- Ricardo Rocamora — empresário
- Jaqueline Mendonça Leiria — empresária e funcionária da família Serra
A promotora de Justiça Bianka Mendes também pede o ressarcimento aos cofres públicos no valor de, no mínimo, R$ 40 mil, além da perda dos direitos políticos por tempo a ser determinado pelo juiz Daniel Raymundo da Matta, da 2ª Vara Cível de Sidrolândia.
Esquema de favorecimento de licitação
Conforme investigação iniciada em 2022, que também embasou a Operação Tromper, houve um esquema para direcionamento da contratação da empresa JL Serviços Empresariais e Comércio de Alimentos em certame para a construção de 400 túmulos — que nunca foram feitos no cemitério de Sidrolândia.
A empresa foi constituída por Claudinho Serra, que providenciou a abertura formal de CNPJ em nome de Jaqueline, que era uma pessoa de confiança e que tinha vínculo profissional com empresas da família Serra.
Ela trabalhava desde 2009 em uma empresa dos pais de Claudinho, mas foi desligada em abril de 2022. A investigação apontou que Jaqueline foi demitida apenas para dar ares de afastamento de vínculo, pois continuou prestando serviços de forma informal — mediante acordo não formalizado.
O certame para as intervenções no cemitério foi lançado meses após a constituição da JL. Nesse esquema, Frescura atuava como intermediador e tratava das estratégias para garantir a vitória da empresa no pregão presencial.
Já Rocamora tratava da formação de propostas, definição de preços e eventual composição com outras empresas participantes — tudo para garantir o resultado desejado pela organização criminosa. Por sua vez, Marcus Vinicius repassava informações internas e orientações acerca das exigências do edital.
Inclusive, o Jornal Midiamax revelou conversas entre os dois em que Serra diz a Marcus que ele ‘já é do time’ e que ‘não abandona parceiro por nada’. Ele chegou a ser preso em abril de 2024, na terceira fase da operação Tromper.
Por fim, Carmo Name foi designado para atestar e fiscalizar o contrato firmado entre a JL e a Prefeitura de Sidrolândia.
Condenados e presos
Envolvidos no esquema e alvos da primeira fase da Tromper, em maio de 2023, já foram condenados. A sentença proferida pelo magistrado em 8 de agosto do ano passado e condenou o grupo a penas que somam mais de 111 anos de prisão.
A decisão também determinou ressarcimentos dos cofres públicos no valor de R$ 349.953,02, com juros e correção monetária.
De acordo com as sentenças aplicadas pelo juiz Bruce Henrique, o empresário Ueverton da Silva Macedo, o Frescura, foi o réu punido com maior condenação. Ele terá de cumprir 37 anos, 10 meses e 8 dias de prisão.
Na sequência, o também empresário Ricardo José Rocamora Alves, sentenciado a 28 anos, três meses e 20 dias de prisão.
- Roberto da Conceição Valençuela, outro empresário, foi condenado a 11 anos e 6 meses de prisão;
- O empresário Odinei Romero de Oliveira, foi sentenciado a 4 anos, 9 meses e 18 dias de prisão;
- Ewerton Luiz de Souza Luscero, também empresário, a 15 anos e 9 meses de prisão;
- O servidor público Flávio Trajano Aquino dos Santos, a 8 anos e 4 meses de prisão;
- César Augusto dos Santos Bertoldo, servidor público, a 5 anos, 6 meses e 20 dias de prisão;
Entretanto, com as novas fases da operação, Claudinho Serra e Carmo Name foi preso novamente em junho de 2025, na quarta investida do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). Atualmente, Serra e Name enfrentam medidas cautelares, após se livrarem de tornozeleira eletrônica.
Claudinho, o assessor e Ueverton também enfrentam denúncia por corrupção (ativa e passiva) e lavagem de dinheiro. Frescura está preso após ser alvo da Operação Camuflagem. Já Marcus Vinicius está usando tornozeleira eletrônica.
Como funcionava o esquema?
As investigações apontaram que Serra teria atuado decisivamente na organização, trazendo para si a função de gerir, junto à administração pública, o grupo criminoso que tinha como líder empresarial Ueverton Macedo, conhecido como Ueverton “Frescura”. Outro participante do esquema era Ricardo José Rocamora Alves, que permaneceu meses foragido até a operação.
Um dos meios de fraudes era a utilização de várias empresas ligadas aos integrantes do grupo criminoso. Além disso, os preços oferecidos eram extremamente abaixo do valor de mercado, o que levava o grupo a vencer grande parte das licitações da Prefeitura de Sidrolândia.
Assim, no decorrer da execução dos contratos resultantes das licitações fraudadas, eram realizados empenhos visando exclusivamente aos valores aspirados pelo grupo criminoso, desprezando a real necessidade dos órgãos públicos, posteriormente sendo emitidas notas fiscais forjadas.
“Em termos práticos, apurou-se que os valores a título de propina eram repassados conforme a necessidade e/ou exigência de agentes políticos e servidores públicos, sendo a partir de então estipulada pelos empresários a margem de lucro que seria aplicada sobre o valor repassado (propina), em quais contratos públicos recairiam as cobranças dos valores, bem como quais produtos formalmente licitados constariam nas notas fiscais forjadas”, diz parte do relatório.
Diversas trocas de mensagens entre os acusados demonstram como funcionava o esquema de corrupção. Em uma conversa de 23 de setembro de 2023, entre Rocamora e Ueverton “Frescura”, é tratado sobre a necessidade de emissão de notas fiscais ainda no mesmo dia. O pedido teria partido de Cláudio Jordão Serra Filho, tratado nas conversas como “chefe”, para pagamento de “determinadas pessoas”.
Operação Tromper
Em maio de 2023, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) foi às ruas de Sidrolândia para cumprir mandados de busca e apreensão contra empresários e servidores: era o início da Operação Tromper.
O alvo era a empresa Rocamora Serviços de Escritório Administrativo Eirelli, do empresário Ricardo José Rocamora Alves, que seria por onde passava a maior parte das notas frias emitidas no esquema.
A firma havia conquistado mais de R$ 2,3 milhões em contratos com a administração municipal, de itens que vão de chaveiros a merenda escolar, fato que chamou a atenção dos investigadores.
Meses depois, em julho, o Gaeco lançou a segunda ofensiva contra o grupo acusado de ‘abocanhar’ milhões em verbas públicas de Sidrolândia.
Naquele momento, foram presos os empresários Ueverton da Silva Macedo e Roberto da Conceição Valençuela, além do então servidor municipal Tiago Basso da Silva — que, tempos depois, firmou a primeira delação do caso.
Nesta ação, sete envolvidos foram denunciados pelo MP e se tornaram réus:
- Ueverton da Silva Macedo, o Frescura (empresário);
- Ricardo José Rocamora Alves (empresário);
- Roberto da Conceição Valençuela (empresário);
- Odinei Romeiro de Olveira (empresário);
- Evertom Luiz de Souza Luscero (apontado como laranja de Frescura);
- César Augusto dos Santos Bertoldo (servidor);
- Flávio Trajano Aquino dos Santos (servidor).
Já o empresário Milton Matheus Paiva Matos, que foi denunciado, está com processo suspenso após fechar o segundo acordo de colaboração premiada. Conforme as investigações e a delação premiada, o grupo se reunia para discutir fraudes em licitações no município de Sidrolândia. Denunciado, o ex-secretário de Infraestrutura Carlos Alessandro da Silva se livrou do processo.
Em abril de 2024, foi deflagrada a terceira fase da Tromper. Foi identificada nova ramificação da organização criminosa, atuante no ramo de engenharia e pavimentação asfáltica. Os contratos já identificados e objetos da investigação alcançam o montante aproximado de R$ 15 milhões.
Na ocasião, o ex-secretário Claudinho Serra, na época vereador da Capital, foi preso. Ele havia tomado posse na Câmara poucos dias depois da primeira fase da operação. Menos de um mês depois, Serra foi solto.
Em abril de 2025, Claudinho Serra e outros 22 viraram réus após o juiz da Vara Criminal da comarca de Sidrolândia, Fernando Moreira Freitas da Silva, aceitar a denúncia apresentada pelo MPMS.
Investigações do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e delação premiada do ex-servidor Tiago Basso da Silva apontam supostas fraudes em diferentes setores da Prefeitura de Sidrolândia, como no Cemitério Municipal, na Fundação Indígena, no abastecimento da frota de veículos e em repasses para Serra feitos por empresários. Os valores variaram de 10% a 30% do valor do contrato, a depender do tipo de “mesada”.
Já em junho, o MPMS realizou a quarta fase da Tromper. Segundo as investigações, a organização criminosa permaneceu ativa mesmo após a deflagração das operações anteriores e a aplicação de medidas cautelares.
Claudinho Serra voltou a ser preso nesta etapa. Após meses recorrendo, o ex-vereador e ex-secretário conseguiu ser solto por decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça).
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