A menos de quatro meses das eleições de 2026, Mato Grosso do Sul vive uma nova escalada nos conflitos fundiários envolvendo povos indígenas e produtores rurais. Sidrolândia voltou a ser o epicentro das discussões após a ocupação de duas propriedades rurais ligadas a uma antiga disputa territorial da Terra Indígena Buriti.
No último sábado, indígenas ocuparam as fazendas São Sebastião e Água Clara, localizadas em Sidrolândia. A ação faz parte da reivindicação histórica pela retomada de aproximadamente 17,2 mil hectares que, segundo os povos originários, integram a área tradicional da Terra Indígena Buriti e foram sobrepostos pela expansão de propriedades rurais.
A disputa se arrasta há anos e, desde 2013, lideranças indígenas cobram a retomada do processo de demarcação, que permanece paralisado.
A ocupação teria começado por volta das 17h de sábado. Já na manhã de domingo, equipes da Polícia Militar realizaram a retirada dos indígenas que permaneciam nas propriedades.
Entidades do agronegócio criticam ocupações
O episódio provocou reações imediatas das principais entidades do setor agropecuário sul-mato-grossense.
A Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) classificou a ação como uma invasão e afirmou que houve a prática de crimes que devem ser rigorosamente investigados pelas autoridades, com a responsabilização dos envolvidos.
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) também se manifestou, destacando os prejuízos materiais e psicológicos enfrentados pelos produtores rurais e cobrando medidas mais efetivas do poder público.
Segundo a entidade, a impunidade tem agravado o cenário de insegurança no campo.
Lideranças indígenas questionam ocupação
Por outro lado, o deputado estadual Vander Loubet afirmou que lideranças e caciques da região teriam demonstrado surpresa com a ocupação, alegando que manifestações indígenas tradicionalmente são organizadas de forma coletiva e amplamente discutidas entre as lideranças.
A declaração abriu espaço para debates sobre a origem e a articulação dos movimentos recentes.
Nova ocupação acontece em Amambai
Cinco dias após os acontecimentos em Sidrolândia, um novo conflito foi registrado em Amambai.
Famílias indígenas kaiowá e guarani ocuparam parte da Fazenda Limoeiro, localizada às margens da rodovia MS-156. A reivindicação envolve a área conhecida como Tekoha Tapykora Korá, pertencente à Terra Indígena Iguatemipeguá II.
O processo de reconhecimento territorial também se arrasta há quase duas décadas. O Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) está em elaboração desde 2008.
Assim como em Sidrolândia, a Polícia Militar realizou a retirada dos ocupantes poucas horas depois.
Este é o segundo episódio envolvendo a Fazenda Limoeiro em menos de dois meses. Em abril, uma ação semelhante terminou com a prisão de seis indígenas, entre eles duas mulheres e um adolescente.
Governo Federal reforça atuação da Força Nacional
Diante da nova ocupação em Amambai, o Ministério dos Povos Indígenas autorizou a ampliação do efetivo da Força Nacional de Segurança Pública em Mato Grosso do Sul.
Além do reforço policial, equipes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foram mobilizadas para acompanhar a situação, prestar assistência aos indígenas detidos e monitorar o cumprimento das determinações legais.
Polarização política entra no debate
Os conflitos também passaram a ser alvo de disputas políticas e ideológicas.
Após a ocupação em Sidrolândia, surgiram declarações levantando a hipótese de que a ação teria sido organizada por grupos classificados como “indígenas de direita”, e não pelas lideranças historicamente ligadas a movimentos de esquerda.
O deputado federal Rodolfo Nogueira, conhecido como Gordinho do Bolsonaro, publicou nas redes sociais acusações de que os invasores teriam feito reféns e promovido atos de terror durante a ocupação.
Governador reforça tolerância zero contra crimes
Durante coletiva realizada no Fórum Internacional da Agropecuária (Fiap), em Campo Grande, o governador Eduardo Riedel afirmou que a discussão não deve ser tratada sob uma ótica ideológica.
“Ouvi alguém dizer que é índio de direita ou índio de esquerda. Ou é criminoso de direita ou criminoso de esquerda. Crime é crime. Não interessa quem o pratique. O Estado não vai tolerar isso”, declarou.
Riedel também afirmou que o governo continuará atuando para garantir a ordem, a segurança e a institucionalidade em todo o território sul-mato-grossense.
Disputas fundiárias em números
De acordo com a Famasul, o Brasil possui atualmente mais de 12 milhões de hectares envolvidos em disputas fundiárias. Desse total, cerca de 275 mil hectares estão localizados em Mato Grosso do Sul e passam por processos de delimitação ou contestação territorial.
Com a proximidade das eleições e a continuidade dos processos de demarcação, a expectativa é de que o tema permaneça no centro do debate político e social nos próximos meses.
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