A recuperação do Morenão, com obras estimadas em R$ 17 milhões, simboliza a ampliação da política esportiva proposta pelo governador Eduardo Riedel, que reúne formação, inclusão e alto rendimento. A reportagem conecta a memória de Roberto Oliveira, torcedor que frequenta o estádio desde criança, à trajetória de Pedro Samuel, atleta da Seleção Brasileira de Wrestling beneficiado pelo Bolsa Atleta, além de destacar avanços no esporte escolar, paradesporto e interiorização das ações.
Durante muito tempo, olhar para o Morenão era também olhar para uma lembrança.
Quem viveu os grandes dias do futebol em Campo Grande sabe o que significava chegar ao Estádio Universitário Pedro Pedrossian e encontrar as arquibancadas cheias, o barulho das torcidas e o gramado como ponto de encontro de uma cidade apaixonada por esporte.
Roberto Cruz de Oliveira, 61 anos, aposentado, começou a frequentar o Morenão em 1976, quando tinha apenas 11 anos. Ia com o pai, José Roberto, e foi com ele que aprendeu a amar o Operário.
“Em 1977, quando o Operário foi o terceiro colocado do Brasil, nós íamos a família toda. Meu pai levava minha mãe e meus irmãos. Os jogos eram aos domingos e às quartas-feiras. A gente ia de ônibus até a Rodoviária Velha e, de lá, para o Morenão.”
A viagem fazia parte da experiência. O ônibus, a Rodoviária Velha, o caminho até o estádio, a chuva e o barro eram detalhes de um ritual familiar que se repetia para acompanhar o Galo. Décadas depois, a lembrança ainda permanece ligada à presença de quem já não está mais aqui.
“Falar sobre o Morenão me fez retornar lá longe. Minha mãe, Dona Eva, meu pai José Roberto e meus irmãos indo na chuva para o Morenão, amassando barro. Que amor nós tínhamos pelo Galo, meu Deus.”
A memória, entretanto, durante anos ficou presa ao passado.Com o estádio fechado, o Morenão deixou de ser palco de grandes partidas e passou a representar também um dos desafios da infraestrutura esportiva de Mato Grosso do Sul.
Agora, às vésperas dos 127 anos de Campo Grande, comemorados em 26 de agosto, esse cenário começa a mudar. O Morenão voltou à agenda do Governo de Mato Grosso do Sul e se tornou um dos símbolos mais visíveis da discussão sobre o futuro do esporte no Estado.
A transferência do estádio da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para o Governo do Estado abriu caminho para que o poder público estadual assuma as intervenções necessárias e estruture uma nova forma de gestão para o espaço.
O governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, resumiu o momento como um recomeço. “O Morenão talvez seja o ícone dessa história”, afirmou Eduardo Riedel.
Riedel também reconheceu o papel da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da reitora Camila Ítavo no processo que permitiu a transferência do equipamento para o Estado.
Com a mudança, segundo o governador, foi possível avançar em ações que estavam condicionadas à situação jurídica e administrativa do estádio.
A recuperação começa pelo gramado. A Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul trabalha na troca do campo e na implantação do sistema de irrigação. Ao mesmo tempo, o Governo prepara a licitação para as obras de recuperação do estádio, estimadas em R$ 17 milhões, segundo Riedel. A gente está terminando a licitação e, daqui a pouco, começam as obras de recuperação do Morenão”, afirmou.
A proposta, porém, vai além de simplesmente reabrir os portões. A ideia é recuperar o espaço, colocá-lo novamente em funcionamento e buscar uma solução de gestão que permita sua utilização e sustentabilidade no longo prazo.“É um recomeço”, resumiu o governador.
Um estádio que representa uma política maior
A retomada do Morenão acontece dentro de uma política esportiva que passou a olhar para o esporte para além da competição.
“O esporte também pode ser educação, inclusão, cidadania, formação, saúde e oportunidade”, diz o governador.
O Plano de Governo 2027–2030, proposto por Riedel, amplia essa visão, tratando o esporte como uma política para diferentes fases da vida.
Na prática, isso significa começar na escola, chegar às comunidades, alcançar o interior, descobrir talentos e criar condições para que alguns atletas avancem até o alto rendimento.
Os números ajudam a dimensionar essa trajetória. Os Jogos Escolares, por exemplo, passaram de cerca de 2,1 mil participantes para 9,9 mil. O número de municípios envolvidos também cresceu de 29 para 64.
Mais do que números, são milhares de crianças e adolescentes que tiveram a oportunidade de descobrir no esporte uma possibilidade de convivência, disciplina e competição.Para alguns, essa experiência pode representar o primeiro passo de uma trajetória muito maior.
Foi assim com Pedro Samuel Gonçalves Silva, hoje com 24 anos.
Da rua às competições
Pedro começou sua vida esportiva no judô e no jiu-jitsu. Em 2014, conheceu o wrestling e passou a treinar com o professor Agnaldo, no projeto social Guerreiros de Amanhã.
Entre 2015 e 2016, disputou sua primeira competição. E não parou mais. Mas seguir no esporte de alto rendimento não foi simples. Sem bolsa ou apoio financeiro, Pedro e sua família precisavam encontrar maneiras de pagar inscrições, viagens e outros custos das competições. Vieram rifas, almoços organizados pela família, trabalhos de panfletagem e até atividades em eventos. “A gente tinha que se virar como podia”, lembra.
Era uma rotina paralela à rotina de treinos. Para continuar competindo, era preciso também encontrar formas de financiar a própria trajetória esportiva. Foi nesse contexto que o Bolsa Atleta passou a representar uma mudança concreta.
Hoje beneficiário do programa estadual na categoria pré-olímpico, Pedro diz que o apoio permitiu uma mudança fundamental: deixar de dividir o tempo entre o esporte e trabalhos necessários para custear a carreira.
“E através da Bolsa Atleta a gente pôde se dedicar inteiramente ao esporte, sem necessidade desses trabalhos paralelos para poder continuar na vida esportiva.”
A história ajuda a colocar rosto e voz em um número. O investimento anual no Bolsa Atleta passou de R$ 534 mil em 2013/2014 para R$ 4,3 milhões em 2024/2025.
O programa também foi ampliado com novas categorias, incluindo atletas universitários, master, pré-olímpicos, pré-paralímpicos e pré-surdolímpicos, além do apoio aos técnicos.
Em 2026, o Governo de Mato Grosso do Sul destinou R$ 4,2 milhões aos programas Bolsa Atleta e Bolsa Técnico, contemplando 304 atletas.
Para quem está fora das pistas, tatames e arenas, números como esses podem parecer apenas números. Para um atleta, podem representar a diferença entre conseguir viajar para uma competição ou ficar em casa. Entre comprar equipamento ou improvisar. Entre trabalhar para pagar uma inscrição e ter algumas horas a mais de treinamento.
Para Pedro, significou a possibilidade de concentrar energia naquilo que começou ainda adolescente. Hoje, ele integra a Seleção Brasileira de Wrestling. E os objetivos também cresceram. Há competições importantes pela frente e um sonho que já não cabe apenas na dimensão pessoal.
“Eu quero conseguir o que almejo não apenas para mim, mas para o Estado de Mato Grosso do Sul, que é a vaga olímpica e, posteriormente, com muito trabalho, muita dedicação, uma medalha olímpica.”
A trajetória de Pedro mostra uma das pontes mais difíceis de construir no esporte: aquela que liga a descoberta de um talento à possibilidade real de transformá-lo em atleta de alto rendimento. A política esportiva começa muito antes do pódio. Começa quando existe uma oportunidade.
Quando o talento encontra oportunidade
A história de Pedro também ajuda a entender por que programas de incentivo podem ter impacto que vai além da medalha.
O atleta não surge pronto. Antes da Seleção Brasileira, existe o projeto social. Antes da competição internacional, existe a primeira competição.
Antes do sonho olímpico, existem viagens, treinos, inscrições, equipamentos, professores e famílias tentando fazer a trajetória caber dentro da realidade financeira. O esporte de alto rendimento é construído em etapas. E, em cada uma delas, a falta de recursos pode interromper uma carreira antes mesmo que ela alcance seu potencial.
É justamente por isso que o crescimento dos programas de apoio precisa ser observado também pelas histórias individuais que existem por trás dos números.
No caso de Pedro, existe um jovem que começou no judô e no jiu-jitsu, encontrou o wrestling em um projeto social e, depois de anos de sacrifício, chegou à Seleção Brasileira. O próximo passo que ele persegue é ainda maior. Uma vaga olímpica. E, depois dela, uma medalha.
Um esporte que também inclui
Se o esporte pode mudar a trajetória de um jovem, ele também pode mudar a forma como uma sociedade enxerga a inclusão. O crescimento do paradesporto em Mato Grosso do Sul é uma das faces dessa transformação. O número de municípios atendidos passou de seis para 41. O número de pessoas alcançadas saltou de 96 para 3.677.
Por trás desses números existem crianças, jovens e adultos que encontraram no esporte não apenas uma atividade física, mas um espaço de autonomia, convivência e participação. É uma dimensão que aparece também nas Paralimpíadas Escolares, nos festivais paralímpicos e surdolímpicos e em outras ações voltadas às pessoas com deficiência.
A proposta para o próximo ciclo é ampliar ainda mais esse alcance, incluindo pessoas com deficiência, idosos, povos indígenas e outros grupos vulneráveis nas políticas esportivas.
Do Morenão para o interior
A política esportiva também deixou de ter como único endereço a Capital.
Os Jogos Abertos de Mato Grosso do Sul passaram a percorrer diferentes regiões do Estado, levando competições para municípios como Ponta Porã, Maracaju, Aquidauana, Paranaíba, Naviraí e Três Lagoas. Na fase regional de 2025, foram 1.344 participantes em 20 municípios.
O mesmo princípio aparece nos jogos universitários, nas ações para comunidades quilombolas e na construção de campos de futebol em comunidades indígenas de municípios como Aquidauana, Miranda, Porto Murtinho, Tacuru e Dourados. É a ideia de que o esporte não precisa esperar o atleta chegar à Capital.
“O Estado também pode levar o esporte até onde as pessoas estão”, aponta Riedel.
O esporte como oportunidade
Essa visão aparece nas propostas para 2027-2030. O plano prevê ampliar núcleos esportivos comunitários, especialmente em territórios vulneráveis; fortalecer o esporte escolar e universitário; ampliar a inclusão; criar uma política permanente de desenvolvimento de talentos e levar estruturas esportivas para diferentes regiões.
Também está entre as propostas utilizar o esporte como instrumento de prevenção da violência e como vetor de turismo, desenvolvimento regional e economia.
Nesse cenário, o Morenão volta a ocupar um lugar simbólico. Porque recuperar o estádio não significa apenas devolver um campo de futebol à cidade.
Significa recuperar um espaço que faz parte da história de Campo Grande e, ao mesmo tempo, criar uma estrutura capaz de receber futebol, grandes eventos, atividades culturais e outras iniciativas. O estádio pode voltar a ser ponto de encontro.
Mas existe uma história maior acontecendo ao seu redor. Enquanto se discute a recuperação das arquibancadas e do gramado, atletas como Pedro treinam para chegar a lugares que, até pouco tempo atrás, pareciam distantes. Um representa a memória do esporte. O outro, a possibilidade de seu futuro.
Um novo capítulo para uma velha história
Para Roberto, o futuro do Morenão também passa pela possibilidade de reencontrar algo que fez parte de toda a sua vida. O pai que o levou ao estádio pela primeira vez não estará presente quando os portões forem novamente abertos. José Roberto morreu antes de ver o estádio voltar a fazer parte da rotina esportiva de Campo Grande.
“Meu pai faleceu e não vai ver a abertura do Morenão. Mas a expectativa é muito grande. Voltar a ver o nosso futebol voltar será muito bom, principalmente com o Operário voltando ao cenário nacional.”
A relação de Roberto com o estádio, entretanto, atravessou gerações. Antes que o Morenão fechasse de vez, ele ainda conseguiu levar os próprios netos para assistir a um jogo do Galo. “Antes de fechar de vez o Morenão eu ainda consegui levar meus netos para ver um jogo do Galo.”
É como se, naquele momento, uma história iniciada em 1976 tivesse completado um ciclo. O menino de 11 anos que seguia o pai até o Morenão tornou-se adulto, construiu a própria família e voltou ao estádio acompanhado por uma nova geração.
No caminho, ficaram as lembranças dos ônibus, da Rodoviária Velha, das arquibancadas, da chuva e do barro.
Ficou também a ausência do pai. Mas permanece a expectativa de que os netos possam voltar. Talvez seja justamente por isso que o Morenão tenha um peso tão grande no aniversário de Campo Grande. Ele representa uma parte daquilo que a cidade foi. Mas também pode representar aquilo que pretende voltar a ser. Arquibancadas ocupadas. Famílias reunidas. Competições acontecendo. Atletas entrando em campo.
E uma nova geração construindo suas próprias memórias no mesmo lugar onde tantas outras já construíram as suas. Pedro Samuel talvez ainda não tenha uma história para contar sobre o Morenão. Sua história está sendo escrita em outro lugar: nos tatames, nas viagens, nos treinos e nas competições. Roberto, ao contrário, carrega uma história inteira dentro do estádio. Uma história que começou com o pai, passou pela família e chegou aos netos.
Um representa a memória do esporte. O outro, a possibilidade de seu futuro. E é justamente nessa passagem entre gerações que está o significado mais profundo de recuperar um estádio. Não se trata apenas de reabrir portões. Trata-se de permitir que novas histórias possam começar no mesmo lugar onde tantas outras foram vividas. No fim, ambos falam sobre a mesma coisa: oportunidade.
Um espaço que volta a existir para receber pessoas. E uma estrutura de apoio que permite a um atleta continuar acreditando que é possível chegar mais longe.
Ao falar sobre o futuro do estádio, Riedel resumiu o momento em poucas palavras: “É um recomeço.”
Para o Morenão, pode ser o recomeço de uma história conhecida. Para Roberto, pode ser a chance de voltar ao lugar onde aprendeu, ao lado do pai, a amar o futebol. Para atletas como Pedro, a história ainda está sendo escrita. E é entre a memória de quem já viveu o esporte e o sonho de quem ainda busca seu lugar no pódio que o próximo capítulo começa a ganhar forma.

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