Bonito é conhecida não apenas por seus rios cristalinos e biodiversidade única. A cidade sempre se destacou por ser um território onde a cultura viva pulsava em artesãos, artistas, feiras, festas populares e encontros na praça que construíram identidade coletiva. Mas um padrão preocupante vem emergindo: eventos tradicionais que estruturavam a vida cultural da cidade estão desaparecendo acompanhados de silêncio institucional. E é exatamente este silêncio que merece investigação jornalística rigorosa.
Os Eventos Que Sumiram Sem Avisos
A 21ª edição do Festival da Guavira ocorreu em dezembro de 2024 sem qualquer comunicado oficial prévio. O prefeito Josmail Rodrigues (PSDB/PL), a vice-prefeita Juliane Salvadori (PSDB) e o deputado federal Dagoberto Nogueira publicizaram seu apoio nas redes sociais, mas quando chegou a hora de esclarecer a comunidade sobre os detalhes, a transparência foi substituída pelo vazio de informações. Não se trata apenas de um evento que não ocorreu ou foi realizado em silêncio—é a ausência de um diálogo que deveria ser fundamental em um regime democrático.
As casinhas de Natal que historicamente ocupavam a Praça da Liberdade também desapareceram sem justificativa. Durante anos, esses espaços acolhiam artesãos e vendedores ambulantes, fortalecendo a economia criativa e o espírito coletivo do período festivo. Em 2025, a prefeitura optou pelo silêncio: sem comunicado, sem justificativa, sem escuta da comunidade.
Mais notável ainda é o fim de duas manifestações que se tornaram tradição municipal: o Bonito Blues & Jazz Festival e o Bonito de La Musique, ambos com dez edições realizadas. Relatos indicam que desacordos com a administração municipal levaram ao descontinuação desses eventos, com a prefeitura dificultando—e não apoiando—sua realização em anos anteriores.
Uma Corrupção Que Compromete Tudo
O contexto em que essa crise cultural emerge é crucial. Bonito foi palco de uma operação estruturada do Ministério Público que expôs um esquema de fraudes em licitações que remonta a 2021—justamente quando o prefeito atual começou seu mandato.
Em outubro de 2025, o Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) do MPMS deflagrou a Operação Águas Turvas, cumprindo quatro mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão. Foram presos:
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Edilberto Cruz Gonçalves, Secretário de Administração e Finanças
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Luciane Cintia Pazette, Diretora de Licitações
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O empresário Genilton da Silva Moreira (que já havia sido preso por fraudes em Terenos)
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Outras pessoas envolvidas em esquema de corrupção
Os números são expressivos: licitações supostamente fraudadas somando R$ 4.397.966,86, e a prefeitura teve de suspender contratos no valor de R$ 12.450.060,52 por suspeita de fraude. Os investigadores identificaram uma suposta organização criminosa que fraudava sistematicamente licitações desde 2021, com servidores públicos fornecendo informações privilegiadas a empresários em troca de vantagens indevidas, apontaram as investigações.
A Questão Democrática: Quando Questionar Vira “Ruído”
O que torna esta situação ainda mais preocupante é o padrão que emerge de falta de diálogo. Cidadãos que questionam legitimamente a ausência de eventos e falta de transparência têm sido tratados como geradores de “ruído”. Relatos indicam que pessoas foram removidas de espaços coletivos simplesmente por pedirem informações sobre decisões públicas.
Questionar não é desorganizar. Questionar é exercer cidadania. Quando uma administração municipal responde a questionamentos legítimos com silêncio ou exclusão, algo fundamental se rompe no pacto democrático.
A Cultura Não é Favor
Cultura não é ornamento. Não é privilégio de governantes distribuir ou retirar conforme sua conveniência. É direito constitucional, é economia, é memória, é futuro. A economia criativa que se construiu em Bonito através dos seus artesãos, dos Festivais Blues & Jazz e de La Musique, das casinhas de Natal, era um ativo que diferenciava a cidade.
O silêncio que vem se instalando no setor cultural não é resultado de ausência de alternativas ou falta de recursos. É resultado de escolhas. E escolhas feitas sem transparência, diálogo ou justificativa pública merecem ser questionadas e investigadas.
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