Uma onça-pintada atropelada na BR-262, entre Miranda e Corumbá, ganhou um novo papel na luta pela preservação da própria espécie. Mesmo após morrer ao tentar atravessar a pista, o animal teve material genético coletado por pesquisadores e agora passa a integrar um biobanco de conservação que poderá ser utilizado futuramente em técnicas de reprodução assistida, incluindo clonagem.
O resgate teve início no último sábado (18), após um motorista avistar a onça ferida às margens da rodovia e acionar a Polícia Militar Ambiental (PMA). Com a confirmação da morte, uma equipe do Instituto de Reprodução para Conservação (Reprocon) realizou a coleta de fragmentos de pele e sêmen para preservação laboratorial.
Segundo o veterinário e pesquisador do Reprocon, Gediendson Araújo, o material coletado permitirá o cultivo e armazenamento de células vivas por tempo indeterminado. Desde 2023, esta é a oitava onça-pintada morta em acidentes rodoviários que tem seu material genético preservado pela equipe.
“É mais uma vida perdida na BR-262, um trecho que continua causando impactos graves à fauna silvestre. Pelo menos, conseguimos transformar essa perda em esperança para a conservação da espécie”, destacou o pesquisador.
O Reprocon mantém atualmente um dos maiores bancos de tecidos de onça-pintada do Brasil. A iniciativa busca preservar o patrimônio genético do animal e ampliar as possibilidades de reprodução assistida, ajudando a combater a redução da variabilidade genética das populações isoladas — um dos maiores desafios para a sobrevivência do felino no país.
Apesar do avanço científico, especialistas reforçam que a tecnologia não substitui a prevenção. O atropelamento de animais silvestres continua sendo uma das principais causas de morte da fauna brasileira, especialmente em rodovias que atravessam áreas naturais sem estrutura adequada de proteção.
A ausência de cercas de contenção, passagens de fauna e fiscalização eficiente faz com que tragédias como essa continuem ocorrendo com frequência. Segundo o Instituto do Homem Pantaneiro, aproximadamente 20 onças morreram atropeladas entre 2016 e 2025 apenas nesse trecho da BR-262.

Além das onças, espécies como antas, tamanduás-bandeira, lobos-guará, quatis e tatus também são vítimas recorrentes das colisões. No caso das antas, a situação é ainda mais alarmante: cerca de 100 animais morrem atropelados todos os anos em rodovias de Mato Grosso do Sul, segundo dados da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira.
Além da perda ambiental, esses acidentes representam risco grave para motoristas. Uma anta adulta pode pesar até 300 quilos, e colisões com animais desse porte frequentemente causam ferimentos graves e até mortes humanas.
Especialistas defendem a implantação urgente de medidas como passagens subterrâneas para fauna, cercamento das pistas e radares em trechos críticos. Estudos apontam que a combinação dessas estruturas pode reduzir em até 80% as colisões com animais silvestres.
Enquanto ações de mitigação começam a ser implementadas em algumas rodovias do Estado, como na própria BR-262 e na BR-163, organizações ambientais alertam que o ritmo ainda é insuficiente diante da gravidade do problema.
A morte da onça-pintada agora simboliza, ao mesmo tempo, uma perda irreparável e uma oportunidade científica. Mas o maior desafio segue sendo evitar que novos animais morram nas estradas antes que a tecnologia possa ajudá-los.
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