Na manhã de segunda-feira, 23 de março, lideranças indígenas e o Conselho Terena paralisaram a DISEI-MS (Distrito Sanitário Indígena Especial do Mato Grosso do Sul) devido à falta de veículos para atender às demandas de saúde das comunidades indígenas.
Líderes indígenas do Mato Grosso do Sul interromperam as operações da DISEI-MS em meio a um surto emergencial de chikungunya em Dourados. A DISEI-MS, o maior distrito sanitário que atende os povos indígenas do Brasil, permanece paralisada.
Trinta e cinco caciques Terena da região norte do estado se mobilizaram e ocuparam a sede do distrito em Campo Grande, exigindo uma frota de veículos para o transporte de pacientes indígenas.
Segundo o cacique e coordenador do Conselho Terena, Célio Francelino, os serviços de saúde indígena no MS estão paralisados. “Desde a semana passada, os serviços de saúde e transporte da DISEI-MS estão bloqueados após uma rescisão unilateral de contrato”, explicou.
Negociações estavam em andamento entre a Procuradoria-Geral da República (AGU) e a SESAI (Secretaria de Saúde Indígena) em Brasília para rescindir amigavelmente o contrato de aluguel de veículos. No entanto, a DISEI-MS não agilizou o acordo, o que levou a mais uma suspensão da frota na última sexta-feira, 20 de março.
“Retornamos hoje em busca de mediação para resolver essa questão o mais rápido possível por meio de uma rescisão amigável do contrato. Na última quarta-feira, a locadora liberou os veículos, sob a condição de que a rescisão do contrato fosse assinada até sexta-feira”, disse Francelino.
Os caciques decidiram coletivamente fechar os escritórios da DISEI-MS. “Brasília continua inflexível. As maiores vítimas são as nossas comunidades, que não têm acesso a exames médicos essenciais”, enfatizou Célio.
Além disso, a atual gestão distrital responsável pela saúde indígena básica carece de representatividade indígena, o que o cacique Josimar Miranda destaca como um problema crítico. “A saúde não admite erros. Qualquer erro é fatal”, alertou. Mato Grosso do Sul abriga a terceira maior população indígena do Brasil, com aproximadamente 116 mil pessoas. “A falta de veículos já causou mortes devido à ausência de apoio logístico”, acrescentou Josimar.
O movimento dos caciques busca diálogo com a SESAI em Brasília para negociar um meio-termo e a liberação imediata dos veículos do distrito. “Queremos voltar para nossas famílias, mas, se necessário, ficaremos aqui até que a situação se resolva”, concluiu o cacique Célio.
Situação em Dourados
: A DISEI é a principal responsável pela saúde indígena no MS, incluindo o transporte de pacientes para hospitais e clínicas. “Com essa paralisia, quem vai providenciar o transporte? É por isso que crianças e outros indígenas estão morrendo em Dourados”, afirmou Francelino.
Na semana passada, as escolas das aldeias indígenas de Dourados suspenderam as aulas devido à epidemia de chikungunya, que já causou quatro mortes. O cacique Vilmar Machado informou que somente na Escola Estadual Indígena Guateka Marçal de Souza, 20 funcionários, incluindo cozinheiros, zeladores e oito professores, apresentaram suspeita de infecção por chikungunya, enquanto cerca de 10% dos alunos apresentaram sintomas.
Da mesma forma, a Escola Municipal Indígena Tengatiu Magangatu relatou vários funcionários administrativos e aproximadamente 30% dos alunos com casos suspeitos. Após as quatro mortes, o estado receberá a vacina contra chikungunya. A Secretaria de Saúde do Estado solicitou essas imunizações em resposta ao surto em Dourados.
Entre os falecidos estão três idosos de 60, 69 e 73 anos, além de um bebê de três meses, todos moradores da maior reserva indígena urbana do Brasil, localizada em Dourados. Até o momento, o estado registrou 2.639 casos prováveis de arboviroses em 2026, segundo o Painel de Monitoramento de Arbovírus.
Esta crise evidencia desafios sistêmicos urgentes que afetam o acesso dos povos indígenas aos serviços de saúde em Mato Grosso do Sul, agravados por falhas administrativas e logísticas em meio a uma emergência de saúde pública.
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