Para famílias que vivem em áreas rurais de Mato Grosso do Sul, manter a vacinação em dia nem sempre é uma tarefa simples. As longas distâncias até os centros urbanos podem transformar uma ida ao posto de saúde em uma verdadeira jornada, especialmente para pais e mães de crianças pequenas.
No assentamento Santa Guilhermina, em Maracaju, essa realidade começou a mudar. Moradores passaram a contar com o atendimento de um posto de vacinação itinerante, que leva as doses diretamente para perto das famílias. A comunidade reúne mais de 240 famílias.
Para Tianieli Almeida da Silva, mãe de uma criança, a novidade representa mais praticidade e economia de tempo.
“Pra mim é muito bom que seja possível este atendimento aqui, acredito que para todos os moradores do assentamento, ainda mais para mães de criança pequena, como eu, que sempre precisamos vacinar, de mês a mês, sem ter a necessidade de sair daqui para ir na cidade”, contou.
A iniciativa faz parte da ampliação da estrutura itinerante de imunização do Governo de Mato Grosso do Sul. A estratégia busca enfrentar um dos principais desafios da vacinação no Estado: fazer com que as doses cheguem até moradores que vivem longe das unidades tradicionais de saúde.
Vacinação sobre rodas
Para ampliar o alcance da imunização, o Estado investiu R$ 3,4 milhões na aquisição de dez veículos adaptados como Vacimóveis. Também foram destinados R$ 440 mil para a contratação de dois furgões refrigerados.
As unidades móveis são equipadas para funcionar como uma extensão dos postos de saúde, contando com câmara de conservação de vacinas, materiais para preparação das doses e espaço para atendimento. Uma estrutura externa também pode ser montada para receber a população.
Antes da implantação definitiva, o projeto passou por uma fase experimental entre novembro e dezembro de 2025. Durante o período, os veículos percorreram Corumbá, Inocência, Japorã, Porto Murtinho, Miranda e Paranaíba, com 1.993 doses aplicadas.
Em 2026, a iniciativa foi incorporada ao programa MS Protegido e passou a ter circulação oficial pelo Estado, inicialmente com rotas planejadas para atender diferentes regiões, incluindo áreas rurais, o Baixo Pantanal e municípios da faixa de fronteira.
O funcionamento depende da parceria entre Estado e municípios. O Governo Estadual disponibiliza o veículo, motorista, combustível e técnico responsável pela estrutura. Já as prefeituras ficam responsáveis pelos vacinadores, pelo registro das doses aplicadas e pela mobilização da comunidade.
Uma operação que vai além da aplicação da vacina
Apesar de o atendimento chegar ao morador por meio de um veículo, existe uma estrutura complexa por trás de cada dose aplicada.
As vacinas precisam permanecer em temperaturas adequadas desde o armazenamento até o momento da aplicação. Qualquer falha nesse processo pode comprometer a qualidade e a eficácia dos imunizantes.
Por isso, o Estado também investiu na chamada rede de frio, responsável por garantir a conservação adequada das vacinas.
Em 2025, os Núcleos Regionais de Saúde receberam 197 computadores e nove novas câmaras de conservação. O planejamento prevê a implantação de 439 conjuntos formados por câmaras frias, computadores e nobreaks.
Até o fim de 2025, 39 desses conjuntos já haviam sido instalados em unidades de Dourados, Corumbá, Três Lagoas, Maracaju, Naviraí e Nova Andradina.
Além da conservação, a tecnologia também permite o registro das doses aplicadas e ajuda os gestores a identificar regiões com menor cobertura vacinal.
Segundo Frederico Moraes, coordenador de Imunização da Secretaria de Estado de Saúde, a manutenção da temperatura adequada é fundamental para garantir a segurança e a eficácia das vacinas.
A estrutura também conta com protocolos para situações de emergência, como tempestades e quedas de energia, evitando que problemas no fornecimento elétrico comprometam os estoques de imunizantes.
Profissionais também precisam estar preparados
A expansão da vacinação exige, além de veículos e equipamentos, profissionais capacitados.
Em 2025, 118 trabalhadores da saúde concluíram treinamento para aplicação da BCG, vacina administrada nos primeiros dias de vida e que exige técnica específica.
A atualização das equipes também se tornou cada vez mais importante com a chegada de novos imunizantes ao Sistema Único de Saúde, incluindo vacinas destinadas à prevenção da dengue e de doenças provocadas pelo vírus sincicial respiratório.
Fronteira exige resposta rápida
A estratégia ganha ainda mais importância nas regiões de fronteira, onde a circulação constante de pessoas pode facilitar a entrada e disseminação de doenças.
Em julho de 2025, o risco de circulação do sarampo a partir da fronteira com a Bolívia levou Mato Grosso do Sul a organizar uma força-tarefa em Corumbá e Ladário.
Equipes volantes passaram a atuar em locais de grande circulação, como praças, terminais e estabelecimentos comerciais. Também foram enviadas doses extras aos municípios e adotada a chamada “dose zero” para bebês de seis a 11 meses.
Em poucas semanas, foram aplicadas 1.050 doses em Corumbá e outras 116 em Ladário. A mobilização ainda capacitou 160 profissionais e contou com o envio de 20 mil doses da vacina tríplice viral para a Bolívia, com apoio do Ministério da Saúde.
A estratégia mostra que, em regiões onde a distância e a circulação de pessoas dificultam o acompanhamento da população, levar a vacinação até onde as pessoas estão pode ser decisivo para evitar a disseminação de doenças.
Para o governador Eduardo Riedel (PP), a prevenção precisa acontecer antes que um possível surto seja confirmado.
“A saúde preventiva não pode esperar a confirmação de um surto. Em regiões de fronteira, medir o risco, deslocar equipes e organizar rapidamente a vacinação é parte da proteção das crianças que vivem ali e também das famílias de todo o Estado”, afirmou.

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