O conflito fundiário entre indígenas e produtores rurais, que mobilizou forças militares na manhã deste domingo (14), na região da Terra Indígena Buriti, em Sidrolândia, voltou a repercutir na Câmara Municipal. Durante pronunciamento, o presidente da Casa de Leis, vereador indígena Otacir Figueiredo, defendeu o diálogo, criticou a disseminação do ódio e cobrou uma solução definitiva por parte dos governos.
A tensão ganhou novos capítulos após indígenas da etnia Terena ocuparem a Fazenda São Sebastião da Serra no final da tarde de sábado (13), reacendendo um impasse que se arrasta há décadas no município.
Em seu discurso, Otacir relembrou o assassinato do líder indígena Galdino Jesus dos Santos, ocorrido em Brasília, em 1997, como forma de refletir sobre as consequências da intolerância e do preconceito.
Sem atribuir culpa a nenhum dos lados, o vereador afirmou compreender tanto a realidade dos produtores rurais quanto a luta histórica dos povos indígenas.
“Eu sei me colocar no lugar dos nossos amigos ruralistas, mas também sei a dor que o meu povo enfrenta há muitos anos. Com ódio e ignorância nós não vamos resolver esse problema”, declarou.
O presidente da Câmara também criticou a forma como informações são disseminadas nas redes sociais e em parte da mídia, afirmando que narrativas distorcidas acabam ampliando a polarização e dificultando a construção de uma solução.
Otacir destacou que Sidrolândia é uma das principais potências do agronegócio em Mato Grosso do Sul e defendeu a convivência harmoniosa entre indígenas e produtores rurais.
“Nós respeitamos muito a força do agronegócio, mas existe um problema adormecido que os governos fecham os olhos há muitos anos”, afirmou.
Durante a fala, o vereador relembrou uma proposta apresentada pelo então governador Reinaldo Azambuja, que previa a quitação das indenizações reivindicadas pelos proprietários rurais em áreas de conflito, mas que, segundo ele, não avançou no Congresso Nacional.
Para Otacir, a falta de decisão política contribui para a continuidade dos conflitos e aumenta o risco de novas tragédias.
“Pessoas estão morrendo, vidas estão sendo perdidas e o problema continua sem solução”, disse.
Em outro momento, ele fez um apelo para que o debate deixe de ser tratado sob a ótica da disputa ideológica entre direita e esquerda e passe a priorizar a busca por alternativas concretas.
“A política foi feita para resolver problemas, não para criar problemas”, destacou.
Ao encerrar o pronunciamento, o presidente da Câmara defendeu a união entre os poderes públicos e a construção de um acordo que devolva a tranquilidade ao município.
“Precisamos que o governo coloque um fim nesse problema para que a paz volte ao campo e à cidade. O respeito precisa prevalecer para que Sidrolândia continue sendo uma cidade de convivência entre todos”, concluiu.
A retomada da Fazenda São Sebastião da Serra e a presença de forças de segurança na região evidenciam a complexidade do conflito fundiário em Sidrolândia, considerado um dos mais antigos de Mato Grosso do Sul, e reforçam a pressão para que governos estaduais e federais avancem em medidas capazes de solucionar definitivamente a disputa.
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